Thursday, March 18, 2010 10:02

ATLANTIS – O REINO PERDIDO

Postado por Animaluco em Thursday, March 30, 2006, 22:22
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A Disney cresceu. Ou ao menos, tentou. Depois dos grandes sucessos musicais do estúdio, uma nova direção resolveu ser tomada: explorar o gênero da aventura na animação. Um filme em que as canções e os animais falantes dariam lugar para grandes cenas de aventura e ataques de monstros. O filme seria ATLANTIS – O REINO PERDIDO.

A cargo do projeto, ficaram três grandes veteranos do estúdio, os diretores Kirk Wise e Gary Trousdale e o produtor Don Hahn, o mesmo trio responsável pelo mega sucesso A BELA E A FERA e pelo audacioso O CORCUNDA DE NOTRE DAME. Mais um gigante e talentoso grupo foi unido para a produção, entre eles, o animador Disney de longa data John Pomeroy (URSINHO POOH, BERNARDO E BIANCA, POCAHONTAS), o famoso compositor James Newton Howard e o designer de som Gary Rydstron.

E o filme foi finalmente lançado em junho de 2001, tendo toda a atenção e pompa que os animados Disney tendem a receber – vide brinquedos, roupas, acessórios, livros e toda a parafernália usada pela Disney para trazer ainda um pouco mais de dinheiro aos cofres da empresa. O importante era que a Disney finalmente iria recuperar o dinheiro perdido com A NOVA ONDA DO IMPERADOR do último ano, que havia lucrado apenas $89 milhões nos EUA (pouco para a Disney, mas ainda muito para um filme deixado de lado pelo próprio estúdio). Infelizmente, não foi bem assim que aconteceu.

ATLANTIS tinha o marketing que IMPERADOR não teve, mas não teve o mesmo boca-a-boca positivo que seu antecessor. Infelizmente, o filme do império perdido não conquistou público e crítica, lucrando ainda menos que o do imperador Kuzco: apenas $84 milhões, deixando um imenso orçamento a ser pago. Ironicamente, ATLANTIS acabou tendo o mesmo destino de outro animado Disney que tentou atrair um público mais maduro: O CALDEIRÃO MÁGICO, de 1985, provavelmente o mais ambicioso desenho lançado até a data, quase levou o estúdio à falência. O mesmo seria o destino de PLANETA DO TESOURO, que acabou servindo de bode expiatório para os executivos do estúdio que pretendiam acabar com o departamento de animação tradicional do estúdio.

Mas essa ‘praga’ não pertence apenas à Disney: a ficção-científica TITAN (2000) da Fox lucrou apenas $22 milhões, com um orçamento de $75 milhões, causando o fechamento da divisão de animação do estúdio. E o digital FINAL FANTASY, baseado no famoso jogo de ação, conseguiu apenas $32 milhões. Infelizmente, o público atual parece relutante em aceitar filmes animados que não sejam comédias, como já foi provado pelo sucesso estrondoso de filmes como SHREK e pelo fracasso dos filmes já citados.
Mas o que ocorreu de errado com ATLANTIS – O REINO PERDIDO? Seriam as platéias que não conseguem aceitar algo a não ser musicais animados dos estúdios do Mickey ou foi o próprio filme que ficou aquém das expectativas?

O cenário do filme se passa em 1914, onde o lingüista Milo Tatch (com a voz de Michael J. Fox) pretende organizar uma expedição para descobrir o continente perdido de Atlântida, mas todos consideram suas teses uma bobagem. Quando tudo parecia perdido, Milo recebe uma proposta irrecusável do milionário Preston Whitmore (John Mahoney), que se revela um antigo amigo de seu falecido avô e diz que irá financiar uma expedição para Atlântida. Tendo como guia o Diário do Pastor (livro milenar que mostra a exata localização da cidade), Milo embarca em uma grande aventura juntamente de uma equipe vinda de várias partes do mundo, como a tenente alemã Helga Sinclair (Claudia Christian), o escavador francês Moliere (Corey Burton), a mecânica espanhola Audrey Ramirez (Jacqueline Obradors) e o comandante Rourke (James Garner). A viagem segue cheia de obstáculos e batalhas com monstros, até os exploradores finalmente encontrarem a cidade desaparecida. No local, os membros da expedição se revelam mercenários que querem roubar o Cristal Mãe de Atlântida, objeto que dá vida para os habitantes do lugar, e vende-lo à quem pagar mais. Agora, Milo deve lutar para resgatar o cristal e retorná-lo à cidade – antes que esta seja perdida de vez.

ATLANTIS realmente não é o típico A BELA E A FERA que muitos esperam ao assistir um filme Disney. Os grandes números musicais foram trocados por uma movimentada trilha de James Newton Howard, ambientados por corais em atlante (idioma criado para o filme) estilo new age. Não há nenhum animal falante a ser encontrado, ainda que haja um pouco do ‘humor Disney’ presente, representado nos personagens Mole e Cookie. E, verdade seja dita, ambos não funcionam muito bem no contesto do filme. Não, eles não interferem na ação como as gárgulas de O CORCUNDA DE NOTRE DAME, mas a sensação que nos passa é que estão na fita apenas ‘para fazer graça’. Muito melhor encaixada no filme é a idosa expert em comunicações da expedição, a Sra. Packard, que solta comentários sarcásticos durante todo o filme como, quando perguntada por Milo sobre ter esquecido sua camisola, responde que dorme nua.

A parte técnica do filme é simplesmente uma das mais impressionantes vistas em qualquer filme Disney. São explosões, raios, erupções, veículos voadores cortando a tela, um monstro gigante e o famoso submarino usado pela Disney na divulgação do desenho. O estilo empregado no filme vem do quadrinista Mike Mignola (famoso pelos quadrinhos de Hellboy), e retrata bem o a rigidez do maquinário do período pré-Primeira Guerra. Apesar dos dedos quadrados e rostos triangulares, os personagens movem-se com energia e fluidez, graças aos experientes animadores em frente ás pranchetas de desenho. A maior surpresa vem da personagem Helga, a sensual segunda no comando, animada diretamente da França pelo artista japonês Yoshimischi Tamura.

Ao contrário dos dois filmes anteriores dos diretores, ambientados na França, o reino de Atlântida nunca existiu além do imaginário das pessoas, o que significa que todo o universo do filme teve que ser criado diretamente da mente dos artistas. O resultado é uma mistura de arquiteturas de varias civilizações ao redor do mundo, com grandes templos e monumentos comidos por musgo, mas longe das colunas gregas e pirâmides egípcias. Os cenários foram belamente desenvolvidos por Lisa Keene e sua equipe, usando cores mais sombrias e menos festivas do que as que estamos acostumados a ver nos filmes animados. Também temos grande uso da técnica Deep Canvas, que cria fundos tridimensionais e com profundidade, usada com ainda mais ferocidade nas cenas de vôo e perseguição.

Só que ao mesmo tempo em que ATLANTIS não segue a mesma tradição dos contos-de-fadas da Disney, ele não tem o mesmo encanto. A maior parte do filme funciona muito bem, mas com um elenco enorme de personagens e um tempo de duração tão curto para uma história que está sempre correndo, esta encontra pouco tempo para se desenvolver. Os personagens enfrentam os mesmos problemas, como o interesse amoroso de Milo, a Princesa Kida (Cree Summer), cujo tempo na tela acaba sufocado no meio de tantos personagens.
O ex-animador Disney, Dave Pruiksma, disse uma vez ao ser entrevistado que os realizadores de ATLANTIS estavam mais preocupados em colocar ação no filme do que desenvolver seus personagens. Na verdade, até mesmo essas acabam sendo curtas demais, por razões obvias de economia e tempo (tanto isso que muitas acabaram descartadas durante a produção). E no meio de cenas de ação incríveis (ainda que curtas), o coração do filme acaba sendo perdido.

A conclusão que temos ao assistir ATLANTIS – O REINO PERDIDO é que o filme deveria ter sido cuidado com menos medo pelos executivos do estúdio e com um pouco menos de senso de importância pelos artistas. Um animado no mínimo interessante, que serviu para mostrar que a Disney pode se libertar de seu ‘estigma Peter Pan’, e que eu espero que deva encontrar seu público nos anos a seguir.

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