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ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS
O contato de Walt Disney com a clássica fábula de Lewis Carrol data muito mais longe do que a sua versão animada em longa-metragem de 1951. Em 1923, Walt Disney iniciou uma série de desenhos chamados "The Alice Comedies". Uma inovação para a época, os curtas-metragens colocavam uma menina de verdade em um mundo animado. A série teve sucesso o bastante para gerar mais de 50 episódios.

Já na década de 30, ao planejar seu primeiro longa de animação, Walt chegou a brincar com a idéia de fazer uma versão de ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS estrelando Mary Pickford. Assim como nos desenhos dos anos 20, Alice seria uma personagem de carne-e-osso enquanto todo o resto seria realizado em animação. Um fotograma de um teste de Technicolor foi tudo o que restou do filme, que foi deixado de lado a favor de BRANCA DE NEVE E OS SETE ANÕES.

O projeto de um longa-metragem baseado nas obras de Lewis Carrol foi ressuscitado no começo da década de 40, agora concebido como um filme totalmente em animação. Mas devido a Segunda Guerra Mundial, ALICE retornou às prateleiras, ao lado de outros projetos como PETER PAN e A BELA ADORMECIDA.

ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS apenas seria finalizado e lançado ao público em 1951, um ano depois do grande sucesso de CINDERELA, que havia restaurado a glória do estúdio como o grande poderoso da animação. Mas ao contrário do filme da garota maltratada pela madrasta e pelas irmãs, “Alice” não agradou nem aos críticos nem ás platéias que foram ao cinema. Parte dessa razão é o fato de Walt estar mexendo com uma obra conhecida e adorada pelo grande público, que deve ter estranhado ao ver a obra reproduzida na tela com personagens e seções modificados ou excluídos totalmente. Muitos desses criticismos seriam esquecidos pelas futuras gerações, que começaram a admirar o filme por suas imaginativas seqüências psicodélicas, elevando-o ao status de ‘cult’ (o animador Ollie Johnston já chegou a ser questionado se os artistas estavam sob o efeito de drogas quando criaram ALICE).

A história do filme é a que todos conhecemos: Alice, menina curiosa e cansada de seu mundo monótono, acaba caindo no maluco País das Maravilhas ao seguir o apressado Coelho Branco. Lá conhece personagens como os irmãos gêmeos Tweedle-Dee e Tweedle-Dum, o Gato Risonho, a Lagarta, toma chá com a Lebre Maluca e o Chapeleiro Louco e participa de um jogo de crocket com a Rainha de Copas.

Positivamente ou negativamente, ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS se distingue entre todos os outros filmes do estúdio por fugir do que temos em mente como "o padrão Disney": a heroína não tem nenhum grande propósito ou dilema – ela é apenas uma espectadora das coisas que acontecem ao seu redor; há pouco ou nenhum comprometimento com a realidade; e, finalmente, não há nenhuma lição a ser aprendida ao longo do filme.

A falta de uma protagonista com maior personalidade e de um foco central para a história podem ter deixado alguns espectadores indiferentes ao filme, mas há muito para se admirar em ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS, a começar por seus aspectos técnicos: com o trabalho da artista Mary Blair servindo de grande inspiração para os artistas, o mundo "de verdade" de Alice é retratado com cenários detalhados e fieis à realidade, enquanto, de contrapartida, o País das Maravilhas é retratado com formas exageradas e irregulares, com texturas estilizadas e grandes áreas dos cenários pintadas com mínimas tonalidades de cor. Os efeitos especiais são usados em todo o seu potencial, com lágrimas gigantes transformando-se em uma enchente, a vela de um bolo estourando em fogos de artifício e o ponto alto do filme, em que o exército de cartas de baralho da Rainha desfila enquanto uma cornucópia de cores pisca diante de nossos olhos. A animação dos personagens dá aos animadores infinitas possibilidades de mostrarem sua arte, possibilidades que são totalmente realizadas: temos Alice animada com realismo e movimentos delicados, e personagens excêntricos da fantasia que fazem pleno uso de squash and stretch e de poses exageradas (o Gato Risonho do animador Ward Kimball é um perfeito exemplo).

Isso não quer dizer que ALICE é apenas um filme agradável aos olhos. É um filme extremamente divertido que, apesar de não deixar uma marca emocional como BAMBI e DUMBO, dá ao seu espectador 75 minutos de sólido entretenimento. O estilo das gags utilizadas no filme remete o longa-metragem da Disney de 1945 VOCÊ JÁ FOI À BAHIA?, onde o plausível é ignorado mas nunca contestado, como pode ser visto na cena em que a Lebre Maluca atende ao pedido de Alice por meia xícara de chá fatiando a mesma ao meio (desafiando também as leis da gravidade). Há ocasiões em que o filme assume o tom de auto-sátira, com a própria Alice se dando conta das idiotices repetitivas dos personagens (como a festa de desaniversário na corte da Rainha de Copas).

O fato de a personagem principal ser apenas uma menina comum (e sem graça, alguns diriam) torna tudo ao seu redor ainda mais impossível e fantasioso. Ao início do filme, encontramos Alice enjoada de seu mundo comum e convencional. Ao final de sua jornada, ela está enjoada do mundo que ela mesma criou em sua imaginação.

Talvez o fato de eu nunca ter lido os livros de Lewis Carrol tenha alguma influência em minha opinião, mas a verdade é que não apenas sou um grande fã de ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS como acho que é um dos melhores filmes da Disney. Alguns podem criticar as modificações feitas á história original, mas a impecável qualidade técnica unida á originalidade e personagens coloridos fazem de “Alice” um filme que merece seu status de clássico ao longo dos outros filmes da segunda era de ouro da Disney.

Por Matheus Mocelin Carvalho
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