Em
meio à 2ª Grande Guerra Mundial, Walt
Disney lançava um de seus maiores filmes, BAMBI
de 1942. O filme entrou em produção
no ano de 1936 e Walt pretendia lançá-lo
como seu segundo longa de animação,
depois de BRANCA DE NEVE E OS SETE ANÕES, de
1937. Mas o nível de detalhamento que Walt
exigia do filme, custou nada mais nada menos do que
seis longos anos até que o filme fosse finalizado.
O filme demorou tanto tempo até estrear, que
5 filmes animados foram lançados na sua frente.
Com BRANCA DE NEVE, Walt conseguiu recuperar cada
centavo gasto em sua produção, mas logo
ele contrairia outra dívida para que BAMBI
pudesse ser levado a diante. Em meio a grande crise
que assolava todo o planeta durante o período
de guerra, Walt conseguiu um grande feito quando vendeu
a idéia do filme a um banco que resolveu fazer
o empréstimo. Diferentemente de BRANCA DE NEVE,
BAMBI não foi um sucesso imediato. Em seu lançamento
original não conseguiu a bilheteria esperada,
recuperando-se somente nos posteriores relançamentos
do filme.
Escrito
por Felix Salten em 1923, BAMBI surgiu em uma viagem
que o autor fez pelos Alpes, onde se encantou pela
vida selvagem do lugar. O livro foi publicado em
Viena em 1926 e traduzido para o inglês dois
anos mais tarde. O livro de Salten foi apresentado
à Walt por um de seus animadores, Maurice
Day. Walt pretendia fazer a premiere do filme na
cidade natal de Day, como forma de agradecimento,
porém, o estado da cidade de Maine contestou,
com medo de uma represália partindo dos caçadores
da cidade. Em 1930, Disney conseguiu os direitos
do livro, e Felix que veio a falecer em 1945, não
usufruiu do sucesso econômico de BAMBI, sendo
sua filha, herdeira do legado, a conseguir contratos
mais vantajosos com o estúdio.
A
história do pequeno cervo começa em
uma manhã alegre, onde os animais da floresta
vêm visitar o pequeno príncipe que
acaba de nascer. Ao lado de sua mãe e seu
amiguinho Tambor, um coelhinho bastante espevitado,
Bambi começa um longo processo de aprendizagem.
Sua primeira dificuldade: aprender a andar. Daí
para frente Bambi embarca em uma aventura repleta
de emoções, aventuras e romance!
Para
dar o máximo de veracidade à animação,
Walt conseguiu que dois cervos, batizados de Bambi
e Faline (nome dos personagens do filme), viessem
morar no estúdio para servir de modelo para
os animadores. Na verdade Walt transformou seu estúdio
em um zoológico, pois além dos cervos
haviam rãs, borboletas, pássaros,
coelhos, veados e bois almiscareiros. Tudo isso
para que os animadores pudessem se espelhar ao máximo
nos movimentos dos animais e suas características
mais marcantes.
Os
animadores passaram por muitas dificuldades até
chegar no nível que Walt Disney queria. A
primeira delas, foi fazer personagens que deveriam
parecer reais e serem ao mesmo tempo cativantes
para o público que assistia. Foi então
que surgiu um garotinho meio desajeitado e que trouxe
consigo toda a inspiração de que os
artistas precisavam para tornar o filme mais agradável.
O menino que fazia o teste para a voz do coelho
Tambor, foi percebido por Frank Thomas e Ollie Johnson,
que logo notaram que o que eles precisavam acrescentar
era naturalidade em seus personagens, e o menino
tinha isso de sobra. O diretor de elenco achou que
o menino não tivesse talento algum, mas foi
essa falta de talento que fez os animadores perceberem
que os personagens infantis deveriam ser como crianças
que habitam nossas vizinhanças, naturais
e espontâneos.
Os
animadores também encontraram problemas para
desenvolver algumas cenas do filme. A cena de Bambi
e Tambor no gelo é um exemplo. As idéias
iniciais não funcionavam no segmento, o que
levou os responsáveis pelo filme a quase
retirá-lo. Mas Frank Thomas via na cena grandes
possibilidades, e montou um conjunto de storyboards
que foi apresentado aos demais responsáveis
pelo projeto, que acabaram aceitando a idéia
de Thomas.
A
animação e os efeitos de BAMBI foram
muito importantes para a história dos desenhos
animados. Vários efeitos que foram desenvolvidos
para o filme são utilizados até hoje
na animação tradicional. Um dos mais
impressionantes utilizava um vidro ondulado para
dar efeito de água a um lago por exemplo.
Walt
Disney revolucionou o modo de fazer animados quando
desenvolveu uma câmera multi-planos, formada
por várias camadas do plano de fundo. A câmera
era utilizada principalmente para dar profundidade
aos backgrounds, e em BAMBI o seu uso foi de grande
importância, já que nas cenas onde
existia uma floresta muito densa, ela dava a impressão
de profundidade. Um dos maiores exemplos do uso
dessa câmera no filme, é a abertura,
onde são mostrados vários cenários
da floresta, todos com uma profundidade incrível.
A
arte de BAMBI é algo muito bonito de se ver,
principalmente pelas florestas que parecem ter saído
diretamente de uma obra de arte. Os backgrounds
foram todos produzidos por Tyrus Wong, um pintor
de paisagens chinês que foi para os EUA ainda
criança. È muito fácil perceber-se
a influência chinesa que Tyrus deixou em suas
paisagens. Pinturas muito detalhadas, com cores
ricas, e formas rebuscadas. Tyrus chegou ao estúdio
como um animador intermediário, mas ao saber
que BAMBI estava em produção, resolveu
mostrar alguns de seus trabalhos a Tom Codrik, que
o colocou no projeto. E foi realmente a escolha
certa, pois o pintor fez das paisagens de Bambi
algo que é lembrado até hoje pelos
animadores da nova geração.
A
música em BAMBI tem um papel fundamental.
O filme tem pouquíssimo diálogo, o
que deixa o desenvolvimento da história para
as imagens que aparecem na tela e pela música.
Logo, a música se faz necessária em
praticamente todas as cenas. Composta por Frank
Churchill, a trilha Sonora de BAMBI é de
uma sutileza impressionante. Seus auges orquestrais
durante as cenas de ação e sua melodia
e vozes em coral durante as cenas mais calmas, refletem
todo o estilo de Edward Plumb, que trabalhou em
FANTASIA, e desenvolveu a trilha secundária
de BAMBI.
Uma
das músicas mais empolgantes, no entanto,
acredito que seja de Churchill. No início
do filme, passarinhos começam a assobiar
uma melodia, e esta é tão entusiasmada
que é difícil esquecê-la durante
o filme. Sempre que falo dele, a música me
vem a cabeça.
BAMBI
foi indicado em 3 categorias ao Oscar, Melhor Trilha
Sonora, Melhor Canção ("Love
is a Song") e Melhor Som.
BAMBI
reflete muito do que as pessoas viviam na época
em que foi produzido. A imponência do do pai
de Bambi, por exemplo, mostra exatamente o perfil
paterno da época. Aquela imagem que tinha
de ser respeitada e que estava acima do bem e do
mal. Alguém que assiste o filme hoje em dia
pode estranhar esse distanciamento entre um pai
e seu filho, mas se olharmos para trás veremos
que não exageraram quando fizeram o pai de
Bambi desta maneira. Para percebermos como as coisas
mudaram, basta olharmos para outro filme da Disney,
O REI LEÃO, no qual Mufasa e seu filho Simba,
mantêm uma relação de total
companheirismo.
A
princípio, BAMBI pode parecer um filme com
um enredo fraco, que não chega a lugar nenhum.
Mas o filme vai muito além de uma simples
história, ele conta a maior de todas, a história
da vida! Como nascemos, como crescemos, como nos
acostumamos com certas situações,
como nos sentimos frágeis, como lidamos com
as perdas... Enfim, BAMBI é o resumo da vida
e assim sendo, é quase impossível
não tirarmos algumas lições
dele, que é um dos maiores clássicos
do cinema!
BAMBI
foi o último grande animado a ser produzido
por Walt Disney em um período de oito anos.
Os incentivos dos estúdios à guerra,
e a produção de filmes em massa sobre
o tema, deixaram todos os artistas mobilizados pela
causa, deixando os grandes projetos de lado por
um longo período. As dificuldades de conseguir
incentivos fiscais para grandes produções,
restrições em obter material de prioridade...
Enfim, a crise econômica pela qual Walt Disney
passou, refletiria na produção de
seus filmes. O próximo grande animado seria
CINDERELA, de 1950.