As
pessoas costumam associar filmes de baixo orçamento
a filmes ruins, de má qualidade. Essa associação
muitas vezes tem fundamento, basta olharmos algumas
seqüências inspiradas em clássicos
da Disney. Mas já houve uma época em
que querer repor o dinheiro perdido com grandes produções
que não deram certo nos trouxe um dos mais
belos clássicos que os estúdios de Walt
Disney já fez: DUMBO.
Após
o mau desempenho de PINÓQUIO e FANTASIA (ambos
de 1940) nas bilheterias, Walt Disney resolveu que
teria de produzir um filme de baixo orçamento
que lhe devolvesse parte do dinheiro perdido com suas
duas superproduções. Eis que surge um
pequeno livro, de apenas 8 gravuras, criado por Helen
Aberson e Harold Pearl. Disney entregou o livrinho
a seus artistas e perguntou o que eles poderiam fazer
com a historinha. E foi desse livreto que a história
do elefantinho orelhudo saiu.
DUMBO levou apenas 16 meses para ser finalizado totalmente
e teve um orçamento de $812.000. Somente em
sua estréia original, em 1941, arrecadou cerca
de $1,5 milhão. Assim os estúdios conseguiram
tirar a conta do vermelho e o que seria um curta animado
de apenas 20 minutos, acabou se transformando no animado
de maior sucesso até 1950 quando CINDERELA
repetiu o feito.
O filme conta a história de um pequeno elefante
que é levado por uma cegonha até o circo
onde a Sra. Jumbo, a mamãe elefante, o espera
ansiosamente. Dumbo “nasce” com orelhas
enormes que logo tornam-se alvo de piadas para os
animais e visitantes do circo. Após ser separado
injustamente de sua mãe, Dumbo se vê
totalmente sozinho, pois nem as elefantas, que se
diziam amigas de sua mãe, dão uma trégua
para suas enormes orelhas. É aí que
um ratinho chamado Timóteo resolve ajudar Dumbo
e torná-lo um verdadeiro artista de circo.
Após algumas tentativas de números em
que Dumbo poderia ser a estrela principal que não
deram certo, Timóteo tem a idéia de
fazer Dumbo voar usando suas enormes orelhas.
Com
uma sensibilidade incrível, o filme trata de
assuntos como o preconceito de forma sutil, mas deixando
bem claro que esse tipo de coisa existe e que o filme
está ali para denunciá-las. Toda a simplicidade
da história passa longe de se tornar um empecilho
para o desenvolvimento ideológico do filme,
que tem como pano de fundo mostrar aos que assistem
que temos de conviver com as diferenças da
melhor forma possível. Além disso, DUMBO
mostra que até em desenhos animados os personagens
passam por situações difíceis.
A cena em que a mãe de Dumbo é isolada
dos outros elefantes e Dumbo lamenta a perda sua mãe
em silêncio passa uma emoção tão
grande, que é difícil não sentir-se
tocado. Enquanto Dumbo derrama suas lágrimas
silenciosas, as elefantas insistem em fazer comentários
sobre as orelhas de Dumbo e a prisão de sua
mãe.
Vladimir Tytla, responsável por animar Dumbo,
queria que o personagem tivesse as feições
mais parecidas com um bebê de verdade possível.
Para isso ele inspirou-se em seu filho de 2 anos.
Com isso, Tytla conseguiu expressões faciais
tão realistas, que o elefantinho não
precisou soltar um ruído sequer durante todo
o filme para demonstrar o que estava sentindo. Mas
o trabalho desse animador vai mais além, Dumbo
tem toda a inocência de uma criança de
verdade. A humanidade desse personagem é comparável
a filmes com pessoas de carne e osso. Dumbo só
vai perceber que está sendo vítima de
um preconceito quando sua mãe se revolta com
as maldades de um menino contra seu filhotinho, ou
seja, Dumbo é tão puro que não
conseguia ver maldade nas atitudes dos outros, uma
característica bastante peculiar às
crianças pequenas.
Alguns
julgam injustamente esse filme pela sua animação
não muito sofisticada, e realmente, quem passa
o olho sem compromisso, pode achá-la simples
demais. mas tudo nesse filme, inclusive a crueza de
sua animação é pura poesia.
Para se ter uma idéia, até o tipo de
filmagem das cenas foi feito de forma lenta, para
dar a perspectiva de que a história está
sendo contada do ponto de vista de Dumbo. Já
que os elefantes passam a imagem de um ser devagar.
Um cuidado a mais que os artistas tiveram para tornar
o filme ainda mais sensibilizado.
Mas nem mesmo o próprio Walt Disney tomou consciência
imediata da grandiosidade de DUMBO. Disney rejeitou
o filme por ele ter feito mais sucesso do que outros
projetos em que estava intimamente envolvido, como
FANTASIA e PINÓQUIO e também por ter
apostado no projeto apenas como uma solução
financeira. Sendo assim, o pai do Mickey demorou a
reconhecer que DUMBO havia se transformado em um bom
filme de animação, mesmo avaliando que
sua equipe de artistas estava realizando um bom trabalho
durante a produção.
As
músicas carismáticas de DUMBO renderam
ao filme um Oscar de Melhor Trilha Sonora. Dentre
elas destacam-se Baby Mine (que foi indicada ao Oscar
de Melhor Canção), uma música
emocionante que a mãe de Dumbo canta para ele
quando o elefantinho vai visitá-la em sua “prisão”.
Além disso DUMBO conta com o número
musical mais psicodélico já feito em
um animado Disney, "Pink Elephants on Parade".
Após se embriagar inconscientemente, Dumbo
começa a ver elefantes rosas que dançam
e aprontam. O número é ótimo
e é o ponto alto da animação
do filme, a arte conceitual utilizada nos elefantes
é incrível. Uma releitura da dança
dos elefantes cor de rosa pode ser vista em NEM QUE
A VACA TUSSA, onde vacas ficam coloridas ao ouvirem
a musica hipnótica do ladrão Alameda
Slim, mas o número não dá tão
certo como em DUMBO.
Não foi à toa que DUMBO conquistou milhares
de crianças, e se tornou um dos personagens
mais amados do mundo, com direito até a uma
capa da revista “Times”, que só
não aconteceu por causa do atentado a Pearl
Harbor, Dumbo então, teve de ceder a capa para
um general japonês. Sua simplicidade e seu poder
de provocar emoções das mais diversas
nos que assistem fazem de DUMBO mais um grande clássico
Disney. Poesia, simplicidade e originalidade, são
na minha opinião, as palavras perfeitas para
definir esse grande feito da animação. |