|
|
|
Quando
entrou em produção, Walt Disney tinha
em mente que FANTASIA fosse um perpétuo trabalho
em progresso: isso significa que ele seria lançado
e relançado com novos e velhos segmentos, sempre
estando atualizado. Infelizmente, os números
não contribuíram para que isso tornar-se
realidade.
Que FANTASIA é hoje um dos maiores clássicos
da animação ninguém discute,
mas esta não fora a idéia que a crítica
e o espectador demonstraram em 1940, quando o filme
estreou originalmente nos cinemas. Os críticos
não apoiaram o filme – consideraram-no
muito pretensioso, monótono e ainda criticaram
o fato de Walt querer conceber imagens à música
– e conseqüentemente, fazendo o público
não aparecer.
E
quando as coisas não poderiam ficar pior, elas
ficaram! A Segunda Guerra estourava na Europa, fazendo
Walt perder a maior parte dos lucros no exterior.
Mas nem tudo estava perdido: no meio a diversos relançamentos
nas telas, FANTASIA finalmente começou a encontrar
o seu público a partir dos anos 60, além
de que o VHS do animado tornou-se um dos mais vendidos
de todos os tempos, quando lançado em 1990.
O filme consiste basicamente de 8 segmentos animados,
acompanhados da melhor música clássica
de grandes mestres. O maestro Leopold Stokowski fica
a cargo de reger a Orquestra da Philadelphia, e os
números introduzidos pelo 'expert' em música
Deems Taylor. |
TOCCATA
AND FUGUE IN D MINOR |
|
 |
|
A
abertura do programa fica por conta do segmento “Toccata
And Fugue In D Minor” do compositor Johann Sebastian
Bach. Pela primeira vez, Disney e seus artistas se
arriscaram no mundo da abstração, produzindo
um grande segmento onde a equipe de efeitos especiais
tem a chance de colocar todo o seu talento a vista
na tela. Ainda que não tem a mesma carga de
entretenimento dos próximos desenhos, "Toccata"
pode ser considerado a seqüência mais ousada
de todo o filme. De fato, provavelmente nunca vimos
ou veremos outra obra como esta em animação.
Ainda temos um bom modo de dar a tonalidade ao filme,
com metade do segmento sendo composto de cenas de
Stokowski e a orquestra. |
| |
|
|
O
próximo segmento se trata do famoso balé
"The Nutcracker Suite" de Tchaikovsky. Disney
e seus artistas tomaram um caminho diferente da tradicional
estória envolvendo brinquedos, fazendo uma
própria interpretação da música.
O que veremos na tela é um número que
simboliza as estações do ano através
de fadas aladas e outros elementos da natureza, como
flores e peixes bailarinos, cogumelos chineses e ainda
cravos russos. O diretor Samuel Armstrong faz um competente
trabalho interligando todas as partes individuais
do balé em apenas uma peça, com cada
uma delas simbolizando uma estação do
ano. |
| |
|
|
“O
Aprendiz de Feiticeiro” de Paul Dukas é
o terceiro número e talvez o menos ambicioso
de FANTASIA, o que não o torna diminutivo diante
dos outros segmentos. A verdade é que “O
Aprendiz” é a mais famosa e querida das
peças entre o público, sendo que foi
o pontapé inicial para a produção
de todo o resto do filme. Este é um dos únicos
segmentos que retrata exatamente a história
idealizada pelo compositor ao escrever a música,
e neste caso vemos Mickey no papel do feiticeiro afobado
que quer aprender seu ofício antes da hora.
Ele rouba o chapéu mágico de seu mestre
e dá vida à um bando de vassouras para
encher o caldeirão de água no seu lugar.
Como resultado de sua teimosia, o camundongo cria
algo que nem ele mesmo sabe controlar. Fred Moore
é o diretor de animação do Mickey
neste segmento e foi o principal responsável
pela renovação do design do personagem
vista aqui. Ele ganhou olhos muito mais expressivos
e um corpo com formas mais flexíveis e ainda,
de certa forma, críveis.
|
| |
 |
|
| Dos
músicos cujas composições foram
usadas em FANTASIA, o único vivo na época
era Igor Stravinsky, cuja criação "The
Rite of Spring" é vista na tela como uma
explicação científica da evolução
da vida na Terra, desde os primeiros seres microscópicos
aos gigantes dinossauros. Stravinsky, que na época
disse que a interpretação de Disney
era exatamente o que ele havia imaginado, anos depois
declarou uma certa descontentarão com o desenho,
mas isso provavelmente se deve às alterações
feitas na música sem sua permissão. |
| |
|
|
Abrimos
o segundo ato do programa com sexta composição
de Bethoven, "The Pastoral Simphony", que
rendeu provavelmente o segmento mais gracioso da fita.
Com seu cenário mitológico, o Monte
Olimpo, o elenco de personagens é composto
de figuras tão fantasiosas quanto, como cavalos
alados que cortam o céu, sátiros que
saltam pelos campos, cupidos e ainda centauros e suas
namoradas centaurettes. Curiosamente, a música
originalmente escolhida para a peça era "Cydalise"
de Pyerné, mas Walt resolveu mudar para Bethoven
quando sentiu que esta não fornecia o suporte
suficiente para desenvolver a história. |
|
 |
|
"Dance
of the Hours" de Ponchielli entra em cena no
momento propício, principalmente para agradar
aqueles que estavam achando o filme dramático
demais. Uma sátira ao balé clássico
que representa as horas do dia por um grupo de animais-
avestruzes, hipopótamos, elefantes e jacarés. |
|
 |
|
O
grande final de FANTASIA vem na forma da união
de duas peças que completam uma a outra. A
primeira é "Night on Bald Montain"
de Modeste Mussorgsky, ilustrada pelo demônio
Chernabog que vive no alto da montanha, e na noite
de Hallowen vem atormentar as almas do vilarejo. Este
poderoso desenho se afirma ainda nos dias de hoje
como a mais sinistra e adulta obra já produzida
pelo estúdio, algo que dificilmente seria aceito
pelos executivos nos dias de hoje, devido aos padrões
do 'politicamente correto'. A maravilhosa animação
de Chernabog por Vladimir Tytla ajuda ainda mais a
complementar a apresentação. |
|
 |
|
Interligado
como "Bald Montain", vem a belíssima
e mundialmente famosa "Ave Maria" de Franz
Schubert, que fecha o filme. Talvez o mais simples
dos segmentos - uma procissão religiosa que
segue até uma capela gótica - e ainda
um dos mais complexos, com os intrincados design de
Kay Nielsen e um dos mais extensivos usos da câmera
multiplanos.
|
| |
Estes
comentários foram elaborados com base no DVD
Região 1 (R-1) de FANTASIA - SPECIAL 60TH ANIVERSARY
EDITION, compatível com aparelhos fabricados
no México, Estados Unidos e Canadá. |
Mesmo
nos dias de hoje, é difícil considerar
que o filme funcione para o público contemporâneo.
Ainda que a fórmula de misturar desenho e música
clássica não seja a mesma novidade de
60 anos atrás, FANTASIA apresenta material
que deve ser apreciado pelos grandes fãs de
animação, mas não tem o mesmo
apelo para o público infantil- um cuidado que
foi tomado na produção de FANTASIA 2000,
que apresenta praticamente a metade da duração
de seu antecessor.
Também não é surpresa que a segunda
metade do filme possa funcionar melhor que a primeira
para a maior parte dos espectadores - eu incluído.
Enquanto os segmentos iniciais do programa são
um deleite aos olhos dos fãs de animação,
o segundo oferece um bom pacote de entretenimento,
o bastante para pregar os olhos do espectador na tela-
mas também não deixa o padrão
de excelência de qualidade do primeiro ato cair. |
Por
Matheus Mocelin Carvalho |
Leia
mais sobre:
FANTASIA
FANTASIA 2000
FANTASIA ANTHOLOGY |
|
|
|