“Como
sou um nerd da animação, eu me senti
no céu”, conta Budd. “Ver como
os ‘Nine Old Men’ (os nove grandes animadores
dos estúdios Disney na época) criaram
e animaram estes personagens me deixou me sentindo
como uma criança dentro de uma loja de balas.”
A equipe de Budd encontrou uma fonte especial de inspiração
num conjunto de desenhos feitos por Kahl, nos quais
Peter Pan examina o conteúdo do baú
de brinquedos no quarto das crianças. “Foi
um verdadeiro achado, porque Milt Kahl criou com perfeição
um Peter como um garoto que não é bonito
segundo os padrões clássicos –
ele, na verdade, é até bem comum –
mas que torna-se muito atraente porque exsuda diversão”,
conta Budd. “Peter tem feições
bastante comuns, com um nariz ligeiramente achatado,
o que torna seu desenho um tanto difícil. Os
desenhos de Kahl, contudo, deram-lhe muita vida e
destacam seu espírito brincalhão. Achar
esses desenhos foi fundamental para nós.”
Além
disso, a diretora de arte Wendell Luebbe recorreu
a outra fonte interna para obter uma cópia
específica do filme original que havia sido
restaurada em toda sua glória, na década
de 1950. A equipe estudou meticulosamente todos os
detalhes da apresentação – em
particular, a encenação e o esquema
de iluminação do filme – a fim
de melhor entender seus objetivos artísticos.
“Em termos de iluminação, eles
realmente jogaram a lógica pela janela, colocando
as luzes onde bem entenderam”, explica Budd.
“Foi libertador para nós vermos como
eles haviam usado a iluminação para
forçar nossos olhos a se direcionarem exatamente
para onde os cineastas queriam que olhássemos.”
“Um dos seus maiores feitos – e que nos
serviu como fonte de inspiração –
foi o fato de os personagens terem um brilho interno,
um efeito impressionante em contraste com os cenários
bastante escuros. Isso realmente contribuiu para dar
uma qualidade mágica a Peter Pan.”
Mesmo
assim, os avanços tecnológicos da indústria
cinematográfica entre 1953 e 2002 obrigaram
os cineastas a encontrar um equilíbrio particular
em seus esforços. Para começar, eles
tinham de decidir quando as imagens geradas por computador
não interfeririam nos “valores conservadores”
da produção. Ângulos de câmera
infinitamente mais complexos que aqueles possíveis
na década de 50 permitiram que a equipe técnica
de Peter Pan – De Volta à Terra do Nunca
extrapolasse os limites da sua animação,
criando movimentos que pareciam a um só tempo
orgânicos e dinâmicos.
A Walt Disney Animation da Austrália estava
apta para o desafio. Em sua colaboração
de 15 anos com a Walt Disney Television Animation,
ela criara inúmeros seriados televisivos e
alguns dos lançamentos em vídeo mais
populares da História da animação,
incluindo Rei Leão 2 – O Reino de Simba
(The Lion King II: Simba’s Pride) e A Pequena
Sereia 2 - O Retorno Para o Mar (The Little Mermaid
II: Return to the Sea). A produção de
Peter Pan – De Volta à Terra do Nunca
é o primeiro longa-metragem para o cinema produzido
pelo estúdio da Austrália.
“Não
tenho palavras para descrever as contribuições
da Walt Disney Animation da Austrália”,
afirma Morrill. “A cada nova produção,
a Austrália galga novos patamares em termos
artísticos, e Peter Pan – De Volta à
Terra do Nunca inaugura um novo padrão de excelência.”
Ironicamente, a própria essência da magia
da história – o pó de pirlimpimpim
– se tornou um dos principais pontos de interferência
da CG. Durante a criação do pó
encantado de Sininho, os cineastas descobriram que
a computação gráfica lhe conferia
maior brilho e volume, com uma definição
e nitidez muito maiores. Enquanto os efeitos da animação
bidimensional lhe davam uma aparência mais orgânica
e aleatória, o processo exigia um tempo de
produção infinitamente maior. Por fim,
uma combinação inigualável dos
dois processos demonstrou ser a solução
perfeita.
“Foi engraçado termos feito tantas pesquisas
e termos gasto tanto dinheiro apenas para descobrir
que o pó de pirlimpimpim era um problema complexo”,
relembra Budd. “Tentamos a CG primeiro, mas
o pó carecia de uma sensação
de gravidade – tudo que criamos no computador
dava uma impressão de estar flutuando e ser
curvado. Daí animamos o pó da maneira
tradicional à mão, o que cria um visual
maravilhoso, porém é um processo exaustivo.”
“As partículas do pó são
semelhantes a bolhas – não se pode duplicá-las”,
explica a produtora Michelle Pappalardo-Robinson.
A Austrália realmente assumiu as rédeas
da tarefa e chegou a um meio termo muito fortuito.
Ian Harrowell (diretor de unidade) conseguiu um casamento
perfeito dos mundos da CG e da animação
e colorização tradicionais.”
A
fim de realizar tal feito, a equipe encontrou novas
maneiras de inserir o visual de pinceladas cruas em
suas criações em 3D – resultando
na sensação de cenários pintados
à mão dentro das cenas em computação
gráfica.
“Como nosso objetivo era manter o visual do
filme original, tudo que precisamos fazer foi apagar
todos os traços intrínsecos óbvios
da tecnologia moderna”, conta Budd. “Por
outro lado, é maravilhoso podermos contar com
os recursos da computação gráfica.
Construímos o galeão Jolly Roger em
3D, porque a história pedia um navio que voasse
pelos céus. Não poderíamos ter
feito isso de nenhum outro jeito, senão através
da CG. Nosso desafio era garantir que o navio digital
não tivesse uma aparência plástica
e artificial contra os cenários mais artesanais.”
Ainda assim, Budd e Luebbe optaram por um caminho
totalmente diferente para a viagem de Jane à
Terra do Nunca. No original, Peter Pan lidera seus
hóspedes num vôo, em que eles desaparecem
em meio às nuvens londrinas e reaparecem pairando
sobre a terra do faz-de-conta. Em Peter Pan –
De Volta à Terra do Nunca, os cineastas optaram
por levar os espectadores numa viagem mágica,
que lembra o caleidoscópio colorido e psicodélico
da abertura da série televisiva, O Maravilhoso
Mundo de Disney (The Wonderful World of Disney).
“Ao
contrário do filme original, achei que poderíamos
tornar esse momento realmente elaborado”, relembra
Budd. “Wendell foi o principal responsável
pelo efeito caleidoscópico. Ele achava que,
uma vez que essa viagem não é fisicamente
possível, ele teria de criar uma viagem através
da imaginação.”
O efeito mostra o galeão Jolly Roger flutuando
através de uma profusão de imagens gráficas
que prestam uma homenagem aos ícones do filme
original, incluindo símbolos de piratas, índios,
sereias, etc.
“Não
se trata de uma cena narrativa descritiva –
simplesmente uma brincadeira visual – porém
acredito que seja fiel ao espírito de Peter
Pan, porque o público irá se divertir
com ela”, conta Budd. “As imagens têm
um clima bem anos 50. Nós nos mantivemos bastante
fiéis ao estilo da colorista dos estúdios
Disney, Mary Blair – estudamos suas imagens
em busca de inspiração e tentamos homenageá-la
através do nosso caleidoscópio.”