Quando o trabalho de animação de A Bela
Adormecida (Sleeping Beauty) encontrava-se a pleno
vapor, em meados da década de 50, os maiores
animadores dos estúdios Disney - conhecidos
como os "nine old men, numa referência
sarcástica aos cabeças da Suprema Corte
do presidente Roosevelt - estavam no auge de sua forma
artística. Em seus filmes anteriores, como
Branca de Neve, Pinóquio e Bambi, eles já
haviam demonstrado a viabilidade de produções
de animação na forma de longa-metragem,
e também que personagens bidimensionais de
cartoons, desenhados à mão, poderiam
conquistar o coração e a imaginação
dos espectadores de cinema. A Bela Adormecida (Sleeping
Beauty) foi para eles seu maior desafio até
então, tanto em termos estilísticos
quanto narrativos.
Eric
Larson, um dos maiores animadores dos estúdios
Disney e diretor de seqüências de A Bela
Adormecida (Sleeping Beauty), relembra que houve
um esforço consciente no sentido de dar ao
filme um visual inédito e de torná-lo
o mais perfeito possível. "Após
uma reunião de roteiro, Walt me disse que
não se importava com o tempo que a produção
do filme levaria, contanto que fizéssemos
tudo direito", conta Larson. "Foi um desafio
fazer algo que jamais havíamos feito anteriormente."
Houve
mais reuniões da equipe de roteiristas de
A Bela Adormecida (Sleeping Beauty) do que em qualquer
produção anterior do estúdio,
unicamente com o intuito de dar ao conto de fadas
de Perrault a forma ideal segundo os propósitos
dos animadores. A história original contava
com sete fadas, não incluía o duelo
com o dragão e Malévola era uma bruxa
horrenda, apropriadamente chamada Uglyane.
"A
primeira seqüência que animamos",
relembra Larson, "é aquela na qual a
princesa está passeando no bosque com os
animais e falando acerca de seu amado príncipe.
Walt tinha uma predileção por começar
a produção com uma cena do meio do
filme, pois isso proporcionava à equipe uma
oportunidade ideal para desenvolver os personagens
e suas personalidades."
A
atriz veterana Helene Stanley, que durante 14 anos
trabalhou como a maior modelo do desenho das heroínas
Disney, serviu de inspiração aos artistas
na criação dos movimentos graciosos
da princesa Aurora. Ela também serviu de
modelo e inspiração para Cinderela
e Anita (101 Dálmatas). Com seus olhos amendoados,
queixo pontudo, nariz minúsculo e movimentos
corporais muito expressivos, Stanley era convocada
sempre que se tratava de uma cena difícil
com personagens humanos.
Os
animadores trabalhavam com ampliações
dos fotogramas das imagens live-action dos artistas
e, sem no entanto copiar o traçado por cima,
convertiam e redesenhavam o que viam na forma de
caricaturas, concentrando-se no estilo do traço
escolhido e em áreas determinadas da cena.
Stanley
relembra seu trabalho em A Bela Adormecida (Sleeping
Beauty) como sendo uma experiência com um
grande nível de exigência: "Tudo
precisava ser absolutamente perfeito, todos os movimentos
precisavam ser corretos", conta ela. "Ensaiamos
a cena grandiosa da valsa durante três dias
antes que ela fosse filmada. Eu tive de usar um
figurino confeccionado sob medida para mim, uma
peruca incômoda e também decorar todas
as falas."
O
animador Marc Davis, um dos maiores artistas e desenhistas
de personagem do estúdio, criou e animou
a maior parte das cenas de Aurora e Malévola.
No desenho de Malévola, Davis optou por uma
abordagem única e discreta, tornando-a uma
mulher de grande dignidade e beleza, e não
a caricatural bruxa-vilã dos filmes anteriores.
Sua beleza é fria e perversa e seus movimentos
são graciosos e seguros.
Segundo
Davis, animar Malévola foi um desafio. "Em
quase todas as suas cenas, ela está fazendo
algum discurso ou lançando feitiços",
conta ele. "Ele tinha muito pouco contato íntimo
com os demais personagens."
Davis
conseguiu superar algumas dessas limitações
dando à personagem um visual interessante
e presenteando-a com um bicho de estimação
como comparsa - um corvo espião. Inspirado
por uma imagem religiosa tirada de um livro de arte
tcheco-eslovaco, Davis fez inúmeros testes
com formas como a de uma labareda de fogo, de chifres
e ondulações, em cores triangulares.
Malévola usa um traje longo negro e esvoaçante,
com uma textura que lembra a de um réptil,
o que facilitou sua transformação
na pele escamosa do dragão no qual ela se
transforma posteriormente. Seu chapéu lembra
os chifres de uma cabra e a parte que emoldura seu
rosto foi inspirada nas asas de um morcego.
O
falecido Woolie (Wolfgang) Reitherman, outro dos
"nine old men", dirigiu uma das seqüências
mais espetaculares do filme - o duelo mortal entre
o príncipe e o dragão, que foi animado
primordialmente por Eric Cleworth. Reitherman especializou-se
como diretor e animador de cenas de ação,
como por exemplo a batalha dos dinossauros de Fantasia,
o ataque da monstruosa baleia de Pinóquio
(Pinnocchio) e a hilária cena da perseguição
em alta velocidade, de The Legend of Sleepy Hollow,
na qual Ichabod Crane é perseguido por um
cavaleiro sem cabeça. Subseqüentemente,
ele dirigiu e/ou produziu todos os longas animados
dos estúdios Disney, de A Espada Era a Lei
(The Sword in the Stone) até O Cão
e a Raposa (The Fox and the Hound). Reitherman faleceu
em 1985.
Os
animadores Frank Thomas e Ollie Johnston - que,
juntos, contaram a toda a história da animação
Disney num livro intitulado Disney Animation: The
Illusion of Life - deram vida às três
fadas. Outro renomado animador Disney, Milt Kahl,
criou um príncipe Felipe simpático
e convincente.