Walt Disney chegou a Hollywood em 1923, tornando-se
um pioneiro na arte dos filmes de animação,
com Alice Comedies, Oswald the Lucky Rabbit, o Camundongo
Mickey e os curtas da série Silly Symphonies.
Durante
um longo tempo, ele vinha cogitando a produção
de um desenho em longa-metragem. No início
dos anos 30, ele e Mary Pickford haviam discutido
a produção de Alice no País das
Maravilhas (Alice In Wonderland), tendo a atriz no
papel-título e o restante do elenco a ser desenhado
pelos artistas de Walt. Um projeto semelhante com
Will Rogers numa versão de Rip Van Winkle também
acabou arquivado.
A
idéia de produzir um longa-metragem também
surgiu em virtude das novas injunções
econômicas. A introdução dos programas
duplos nos cinemas ao longo da década de 30,
com as exibição de dois longas-metragens
consecutivos, estava tirando os curtas animados Disney
das telas, vítimas do tempo excessivo das longas
sessões de exibição dupla.
"Uma
noite", relembra Ken Anderson, o veterano diretor
de arte dos estúdios Disney, "voltamos
ao trabalho no estúdio após o jantar,
e Walt conduziu uns 40 de nós até um
pequeno estúdio de filmagem. Todos nos sentamos
em cadeiras de diretor, as luzes se apagaram e Walt
passou as quatro horas seguintes nos contando a história
de "Branca de Neve e os Sete Anões".
Ele não ia simplesmente narrando a história,
ele a encenava, interpretando cada um de seus personagens,
e, ao concluí-la, ele nos contou que este seria
nosso primeiro longa-metragem. Ele planejava fazer
algo que nenhum outro estúdio jamais havia
tentado, mas sua confiança no sucesso do projeto
Branca de Neve foi uma inspiração para
todos nós."
Outro
animador veterano, Ollie Johnston, também esteve
presente naquela noite fatídica e eletrizante.
"Foi preciso muita coragem para fazer o que Walt
fez", conta Johnston. "A história
é baseada na premissa de que a rainha irá
executar a mocinha. Trata-se de um desenho matando
outro desenho. Walt nos convenceu a todos de que isso
poderia ser feito de um forma totalmente convincente,
e nós acreditamos nele."
A
produção de Branca de Neve e os Sete
Anões teve início em 1934 e foi concluída
em 1937. Mais de 750 artistas dos estúdios
Disney trabalharam ao longo desses quatro anos, incluindo
32 animadores, 102 assistentes, 107 in-betweeners
(artistas que preenchem trechos da animação
entre o desenho das cenas principais criadas pelos
animadores-chefes), 20 artistas de layout, 25 artistas
de cenários, 65 animadores de efeitos especiais
(responsáveis pelo desenho da fumaça,
da água e das nuvens, entre outros efeitos)
e 158 profissionais incumbidos da colorização
dos personagens animados nas chapas de acetato transparente
que seriam filmadas pela "câmera multiplanos"
criada por Disney.
Um
programa informal de treinamento para os artistas
foi instituído na casa do animador Art Babbitt,
transferindo-se posteriormente para a sede do estúdio,
quando se tornou incrivelmente popular. Don Graham,
um renomado professor do Chouinard Art Institute,
participou do treinamento dos animadores. Ele ensinou-os
a criar desenhos com um traço simples e definido,
capazes de transmitirem idéias e comunicar
emoções. Suas aulas de análise
do movimento, com modelos vivos, demonstraram ser
de grande valia e, como resultado, Branca de Neve
conseguiu superar a rigidez dos movimentos artificiais
que havia prejudicado a protagonista feminina humana
de The Goddess of Spring.
Durante
o curso da produção, modelos vivos foram
fotografados pelos animadores e tornaram-se objeto
de estudo para a criação de movimentos
mais realistas. Marjorie Belcher (que mais tarde se
tornaria Marge Champion, do famoso casal de bailarinos,
Marge e Gower Champion) interpretava as cenas da Branca
de Neve, com Louis Hightower fazendo-se passar pelo
príncipe. O artista de layout, Ken O'Connor,
foi incumbido da árdua tarefa de reproduzir
as cenas live-action diretamente da moviola. Suas
reproduções foram usadas pelos artistas
como uma espécie de guia da animação.
As proporções das personagens e as marcações
dos movimentos foram ligeiramente alteradas para evitar
o visual forçado e pouco realista que uma cópia
direta teria produzido.
O
filme é composto de mais de 250.000 desenhos,
com uma trilha musical gravada por uma orquestra de
80 músicos. Estima-se que mais de dois milhões
de desenhos e esboços tenham sido produzidos
durante a realização do filme.
A
câmera de planos múltiplos, inventada
e fabricada pelos técnicos do The Walt Disney
Studios, só atingiu a desejada perfeição
com Branca de Neve e os Sete Anões. A câmera
foi planejada para dar profundidade e uma perspectiva
tridimensional a certas cenas animadas, através
de uma técnica na qual as personagens inseridas
num determinado cenário colorido eram filmadas
em diversos níveis diferentes, em planos múltiplos
de vidro. Cada plano podia receber uma iluminação
individualizada para a obtenção de diferentes
efeitos, eles podiam ser movidos individualmente ou
em conjunto, mais próximos ou mais afastados
da objetiva da câmera, em velocidades distindas.
Esta técnica foi empregada pela primeira vez
num curta-metragem animado do próprio estúdio,
The Old Mill (1937), e tanto a tecnologia quanto o
curta foram premiados, individualmente, com Oscars
da Academia.
Foram
necessários meses de pesquisa e a combinação
de 1.500 cores e matizes de tinta para que os químicos
do estúdio chegassem às tonalidades
finais que seriam usadas para colorir os personagens
e os cenários do filme em Technicolor®.
Todos os pigmentos utilizados na produção
foram triturados e misturados segundo fórmulas
especiais, dentro do laboratório de pintura
dos estúdios Disney.
Por
fim, mas não menos importante, as mulheres
do departamento de colorização criaram
um método próprio para dar às
faces de Branca de Neve uma aparência mais natural.
Segundo o papa da animação, Frank Thomas,
as artistas estavam insatisfeitas com as bochechas
ultra vermelhas de Branca de Neve e com o contorno
rígido do seu cabelo. Elas solucionaram o problema
aplicando rouge e outros recursos de maquiagem de
verdade, diretamente nas chapas de acetato do filme.
Walt admitiu que o efeito era ótimo, mas ficou
apreensivo quanto à aplicação
da maquiagem em cada um dos desenhos. Uma das artistas
respondeu: "Sr. Disney, o que acha que nós
temos feito a nossa vida toda?"
Um
dos maiores desafios de Branca de Neve era encontrar
uma personalidade definida para cada um dos sete anões.
Os irmãos Grimm haviam lhe conferido pouca
definição na sua fábula original,
e eles só ganharam nomes, pela primeira vez,
numa antiga montagem teatral, onde foram batizados
de Flick, Glick, Blick, Snick, Plick, Whick e Queen.
Pinto
Colvig, um ator muito versátil do estúdio
que havia criado a voz do Pateta alguns anos antes,
sugeriu que, uma vez que os anões eram muito
diferentes entre si, cada um deveria ter um nome que
indicasse a característica principal de sua
personalidade. A idéia gerou uma longa lista
de possibilidades, como Gabby, Jumpy, Sniffy, Puffy,
Lazy, Stubby, Nifty e Wheezy. Todas elas foram discutidas
e a maioria destacada por várias razões,
algumas bastante óbvias. Deafy (ie, Surdinho),
por exemplo, foi eliminado porque Walt não
queria transformar deficiências físicas
em objeto de sátira e escárnio.
Finalmente,
o nome Mestre (Doc, no original) foi escolhido para
o líder do grupo porque passava a idéia
de uma pessoa amigável numa posição
de autoridade; Atchim (no original, Sneeze) foi inspirado
no ator Billy Gilbert, que havia se tornado célebre
por seu espirro hilário em vários filmes
precedentes; Feliz (Happy, no original) era um contraponto
perfeito para Zangado (Grumpy); Soneca (Sleepy) e
Dengoso (Bashful) eram nomes que davam margem a inúmeras
possibilidades de idéias simpáticas
e engraçadas.
Dunga
(Dopey) foi um problema. Originalmente, ele fora concebido
como uma espécie de trapalhão chapliniano,
mas paulatinamente o personagem foi se transformando
num anãozinho ingênuo e simplório.
Restava ainda a dificuldade de se encontrar uma voz
adequada para ele. As várias possibilidades
testadas acabaram todas soando semelhantes demais
à voz de Mestre. Por fim, alguém sugeriu
que talvez fosse melhor que Dunga simplesmente não
falasse. Esta era a resposta, e assim nasceu o simpático
Dunga - talvez o mais querido do septeto. Dentro do
contexto da história, não há
nenhuma indicação de que Dunga não
possa ou não saiba falar - ele simplesmente
nunca se deu ao trabalho de tentar.
Desenhar
os anões era uma coisa, mas animá-los
era outra bastante diferente. O animador Frank Thomas,
um dos nove integrantes do grupo de trabalho de Walt
conhecido como "Nine Old Men", relembra
a tarefa desafiadora do seguinte modo: "De início,
todos nós andávamos pelos corredores,
balançando a cabeça e resmungando 'são
sete'. Era a primeira vez que precisávamos
criar sete personagens diferentes, todos de uma vez.
Se tínhamos de desenhar algo simples, como
fazer os anões darem um passo para trás,
precisávamos desenhar o movimento de cada um
de um modo diferente. Ora, quantas formas existem
de se dar um passo para trás? Nós desenhávamos
os quatro primeiros, de uma forma extraordinária,
até que chegávamos ao Atchim e nossas
idéias já haviam se esgotado. Foi realmente
um problema."
E
ele acrescenta: "Precisávamos conhecer
bem suas personalidades para entender suas atitudes.
Por exemplo, Atchim era um cidadão respeitável
e extremamente responsável, que levava tudo
muito a sério. Estávamos conscientes
da importância de dotarmos cada um deles com
uma personalidade única." |