Finalmente
a Disney parece ter escutado o apelo de seus fãs.
O CALDEIRÃO MÁGICO, o clássico
esquecido do estúdio foi lançado no
formato digital. O DVD pode ser um pouco decepcionante,
eu admito, mas ainda devemos estar agradecidos à
Disney, já que um filme como este poderia demorar
anos para chegar ao formato.
CALDEIRÃO
MÁGICO foi lançado em 1985, e é
tido como um dos desenhos da época da depressão
da animação. Na data, o estúdio
vivia uma de suas mais intensas crises, sendo que
esta atingia principalmente o departamento de animação.
Os
artistas já estavam desacreditados de seu
próprio trabalho e, o gênero, que Walt
Disney tornara um sucesso anos atrás, já
não era o principal objetivo da Disney.
No mesmo período, a companhia estava sofrendo
uma reformulação: Michael Eisner e
Frank Wells assumiam a presidência, Jeffrey
Katzemberg e Roy Disney ficaram a cargo dos estúdios,
e a equipe de veteranos animadores estava sendo
substituída por uma totalmente nova. Esta
nova administração iria salvar a Disney
da falência total anos mais tarde, mas, infelizmente,
não conseguiu-se salvar O CALDEIRÃO
MÁGICO.
Desde
a década de 70, o estúdio não
tinha nenhuma grande inovação em seus
projetos: todos os animados não fugiam do
tema "animais falantes". Tendo em vista
que não conseguia-se fazer nenhum grande
sucesso desde MOGLI - O MENINO LOBO de 1967, finalmente
foi levada a conclusão de que a fórmula
já estava mais do que desgastada. Foi então
que nasceu O CALDEIRÃO MÁGICO, desenho
que fugiria do estilo habitual Disney e seria voltado
para uma platéia mais adulta. Mas os fatos
não cooperaram para que o filme conseguisse
ganhar pernas - sua problemática produção
durou cinco anos, seu orçamento foi o mais
alto até então e, para completar o
pacote, o público não apareceu nos
cinemas.
Ao
contrário do que aconteceu com FANTASIA e
A BELA ADORMECIDA, que encontraram seu público
anos mais tarde de seu lancamento, O CALDEIRÃO
MÁGICO carrega o estigma de "filme esquecido
da Disney". O problema, é que a própria
tem sua grande parte de culpa do desconhecimento
do filme hoje em dia, já que este foi ocultado
dos olhos dos fãs até 1999, quando
foi lançado em vídeo pela primeira
vez.
Baseado
na obra "The Chronicles of Prydain" de
Lloyd Alexander, O CALDEIRÃO MÁGICO
conta a história da busca do jovem Taran
pelo Caldeirão Negro, uma arma poderosa que,
caso cair nas mãos erradas, causará
danos irreparáveis. Mas quem também
está a procura do caldeirão é
o vilão Rei de Chifres, que com ele pretende
dominar o mundo. Na jornada, Taran conta com a ajuda
de personagens como a princesa Ilone, um menestrel
falido chamado Flores Flama e uma criatura divertida
chamada Gurgi.
Como
nunca li as obras de Lloyd Alexander, não
posso avaliar o quão bem Disney as adaptou.
De qualquer modo, é admirável algumas
das liberdades tomadas que tornam O CALDEIRÃO
MÁGICO um animado Disney diferente dos demais,
tanto que foi o primeiro desenho do estúdio
a receber uma classificação PG. Incluídas
estão incríveis seqüências,
como o despertar do Caldeirão Negro, onde
um exército de esqueletos moribundos acorda
da morte envolto de uma nevoa verde gerada pelo
caldeirão.
Mas
estas fantásticas cenas acabam servindo para
maquiar grandes defeitos de roteiro que fazem de
O CALDEIRÃO MÁGICO um filme problemático.
De início, temos uma proposta interessante,
quando somos apresentados à história
de Taran e sua jornada de busca ao Caldeirão.
Mas chega um ponto no filme em que o roteiro tem
uma brusca parada e parece ir para qualquer lugar.
Até o momento em que os heróis encontram
o caldeirão, diversos personagens descartáveis
aparecem na tela, como as Bruxas de Morva e o grupo
de Elfos. Estes acabam tirando a atenção
dos protagonistas, que ficam com a performance apagada
em meio a tantas situações. No final,
a maioria dos personagens tem um fraco desenvolvimento.
Alguns tem apenas algumas poucas aparições,
como o feiticeiro Dalben, cuja função
no desenrolar da estória não é
nada mais do que avisar Taran sobre o caldeirão.
Além
do extenso elenco de personagens, os cenários
mudam constantemente: em uma hora, a história
se passa no castelo do Rei de Chifres. Momentos
depois, estamos na Floresta Proibida, seguida da
caverna dos Elfos e Morva, para finalmente, nos
momentos finais, voltarmos ao castelo para o clímax.
O
elenco de vozes não apresenta nenhuma grande
estrela, mas pode ser considerado no mínimo
interessante. O Taran de Grant Bardsley é
o clássico menino do interior, cujo sonho
é ser reconhecido como um grande herói.
Infelizmente, Taran é um dos mais fracos
(em ambos os sentidos) heróis da Disney,
sendo que pode se tornar um pouco antipático
em certas partes do filme. A voz de Grant Bardsley
não acrescenta muito ao personagem, mas seu
leve sotaque britânico dá um certo
charme á ele.
Já
a princesa Ilone não é nada mais do
que a donzela em perigo, e, ainda que ela seja extremamente
feminista, não é uma garota que possa
caminhar por suas próprias pernas. Uma curiosidade
é que quando Susan Sheridan deu a voz para
a personagem, ela já não era nenhuma
moça e, mesmo assim, sua voz casa muito bem
com a jovem princesa.
O
já falecido Nigel Hawthorne faz seu primeiro
papel para um filme Disney como o menestrel Flores
Flama (anos mais tarde ele foi o Professor Porter
de TARZAN).
A
necessidade da Disney de incluir "bichinhos
fofos" em seus filmes se reflete até
no mais escuro deles, mas confesso que em O CALDEIRÃO
MÁGICO eles são bem vindos em alguns
casos. Gurgi é um personagem extremamente
simpático que rouba todas as cenas em que
aparece. Ele também é um dos poucos
personagens do filme que exerce algum tipo de emoção
sobre a platéia (a cena em que ele se oferece
em sacrifício ao caldeirão é
um dos pontos altos do filme). Se o filme tivesse
sido um sucesso, tenho certeza que Gurgi teria um
lugar de destaque ao lado de Mickey e Dumbo, no
hall de personagens mais queridos da Disney. Além
de dar vida á Gurgi, John Byner também
faz a voz de Doli, o atrapalhado elfo. Eu geralmente
sou contra que o mesmo ator faça a voz de
mais de um personagem no mesmo filme. Isso porque
algumas vezes, diálogos entre ambos os personagens
feitos pelo mesmo ator nos dá a sensação
de falsidade, pois parece que o personagem fala
consigo mesmo. Felizmente isto não acontece
com Gurgi e Doli. Além de que ambos tem vozes
extremamente distintas, estes personagens nunca
trocam diálogos entre si.
Outra
grande escolha para o filme foi a de John Hurt,
ótimo como o Rei de Chifres. Alguns dos melhores
vilões da Disney são os que tem objetivos
malucos na mente (vide Cruella De-Vil de 101 DÁLMATAS)
e o de O CALDEIRÃO MÁGICO não
é diferente. Mas a diferença do Rei
de Chifres é que ele é um dos personagens
mais sombrios e interessantes já criados
pelo estúdio, tanto que deixou diversas crianças
sem conseguir dormir em 1985.
História
cansativa, personagens pouco envolventes e algumas
fracas performances, O CALDEIRÃO MÁGICO
é um dos piores filmes da Disney, certo?
Simplesmente NÃO! CALDEIRÃO MÁGICO
voltou ás origens da animação,
onde filmes como FANTASIA e BAMBI eram voltados
ao público mais crescido, um telespectador
que Disney havia esquecido pela última década.
Apesar de todos os problemas, os novos artistas
conseguiram mostrar do que eram capazes e, ainda
que o reconhecimento não chegou com O CALDEIRÃO
MÁGICO, o sucesso veio mais tarde com grandes
sucessos como A PEQUENA SEREIA e A BELA E A FERA.
Artistas que mais tarde seriam grandes profissionais
do ramo tiveram alguns dos seus primeiros grandes
trabalhos aqui, como Mike Gabriel, Andreas Deja,
Hendel Butoy, Ruben Aquino e Mark Hehn. Os jovens
e talentosos Glen Keane e Tim Burton chegaram a
participar do projeto, mas suas idéias acabaram
não utilizadas.
Na
área tecnológica, O CALDEIRÃO
MÁGICO merece destaque entre outros animados.
Primeiramente, foi o primeiro desenho desde A BELA
ADORMECIDA (1959) a ser rodado no caro processo
CinemaScope, que possui uma tela 30% maior que a
tradicional. A tela larga mostra cenários
muito mais detalhados, e possui muito mais espaço
para a animação acontecer, ambas tradicionais
e computadorizada - esta segunda teve sua estréia
em O CALDEIRÃO MÁGICO. A trilha foi
ainda mais enriquecida com o som estéreo
dividido em seis canais- algo muito comum hoje,
mas novidade em 1985.
Então
nós vemos o caminho trilhado pelo filme nos
últimos 17 anos: sumiu rapidamente das salas
de cinema em 1985, fazendo a Disney se envergonhar
de seu maior fracasso. Seria lançado em vídeo
por volta de 1990, mas perdeu o lugar para o blockbuster
A PEQUENA SEREIA. Ficou desconhecido por muitos
até 1999, quando finalmente foi lançado
em vídeo. E percebe-se então o medo
que a Disney tinha de não contentar a criançada:
a classificação PG recebida por O
CALDEIRÃO MÁGICO afugentou muitos
pais que acharam o filme adulto demais para os padrões
Disney, fazendo o estúdio repensar no conteúdo
de seus próximos filmes. Felizmente esta
idéia foi amadurecida, e hoje temos desenhos
como O CORCUNDA DE NOTRE DAME e ATLANTIS - O REINO
PERDIDO, onde tanto adultos como crianças
podem ter uma boa hora de diversão. Mas O
CALDEIRÃO MÁGICO que era escuro demais
para os menores ficou infantil demais para os maiores,
fazendo o seu público alvo ficar pouco definido.
Tenho
medo de ter sido extremamente duro com minhas palavras,
pois o que eu realmente acho é que O CALDEIRÃO
MÁGICO nunca poderá ser chamado de
um péssimo filme. Na verdade, o considero
o melhor filme pré - A PEQUENA SEREIA, perdendo
apenas para o excelente AS PERIPÉCIAS DE
UM RATINHO DETETIVE, que seria lançado no
ano seguinte. O que eu posso dizer certamente é
que temos um DVD que deve ser tratado como item
obrigatório em qualquer coleção.
Afinal, nunca se sabe quanto tempo a Disney vai
levar novamente para atender seus fãs!