Considerando que O CÃO E A RAPOSA é
pouco lembrado entre os clássicos de animação
Disney, pode ser fácil esquecer que o filme
foi um marco importante na história do estúdio.
Lançado em 1981, a produção teve
um caminho difícil até as telas: não
apenas a moral dos estúdios Disney estava em
baixa, mas também os animadores veteranos que
criaram clássicos como PINÓQUIO e FANTASIA
estavam todos se aposentando. Além disso, um
grupo de artistas (liderados por Don Bluth, que mais
tarde viria a dirigir filmes como ANASTÁSIA
e EM BUSCA DO VALE ENCANTADO) se desgarrou do estúdio
durante a produção do filme, insatisfeitos
com os rumos que o estúdio havia tomado desde
a morte de Walt Disney. Apesar das dificuldades, O
CÃO E A RAPOSA foi lançado e teve uma
decente bilheteria, sendo o primeiro filme produzido
quase completamente pelo novo time de animação.
Lendo os créditos do animado podemos ver alguns
dos nomes que mais tarde se tornariam tão importantes
quanto os dos Nine Old Men, entre eles John Musker,
Ron Clements, Glen Keane, Don Hahn, Mark Dindal, Chris
Buck e vários outros.
No
prólogo do filme, uma mãe raposa foge
de um caçador pela floresta carregando consigo
seu filho recém nascido. Para protege-lo,
ela o abandona rente à cerca de uma casa
e foge, sendo morta no processo. O filhote é
aparado por Mamãe Coruja que, junto com dois
amigos, Dinky, um canário, e Bruno, um pica-pau,
armam um esquema para faze-lo ser encontrado pela
Viúva Tita, uma senhora que vive sozinha.
Ela adota a raposa, que resolve chamar de Dodó.
Na casa ao lado, Samuel Guerra, um caçador,
traz para casa Toby, um filhote de cachorro, para
o espanto de Chefe, o velho companheiro canino de
Samuel. Algumas semanas se passam e Toby e Dodó
se tornam amigos. Samuel Guerra obviamente desaprova,
já que sua profissão é caçar
raposas, e é isso que ele espera que Toby
faça no futuro. Quando o final do verão
chega, Samuel leva Toby e Chefe para uma temporada
de caça no campo. Meses se passam e Dodó
espera ansiosamente para rever seu amigo. Mas será
que a amizade dos dois irá suportar as obvias
adversidades da relação cão
e raposa?
Apesar
de não estar entre os filmes mais queridos
do estúdio, O CÃO E A RAPOSA possui
uma pequena legião de fãs entre os
aficionados por Disney. Mesmo não sendo um
deles, acho que o filme tem seus momentos, mas o
resultado final como um todo é apenas regular.
O principal problema do filme é o seu excesso
de sacarina. Outros filmes Disney usam do fator
“personagem bonitinho” para cativar
a platéia, mas quase sempre é algo
feito de forma moderada e mais natural. Aqui temos
diversas cenas dos filhotes correndo felizes pela
floresta e cenas do tipo “nós vamos
ser amigos para sempre”.
Os
pontos mais fortes de O CÃO E A RAPOSA são
os momentos em que os diretores permitem que o filme
entre em uma área mais matura do que a maioria
dos animados Disney da época. O conflito
entre os personagens principais é um bom
tema que carrega um subtexto de preconceito e intolerância,
e é mostrado de forma interessante, com momentos
de tensão e drama. A melhor cena do filme,
e certamente a mais famosa entre os fãs de
animação, é a fantástica
luta com o urso durante o clímax do filme.
Animada por Glen Keane com uma grande força
e presença que não é equiparada
em nenhuma outra cena do filme, ela já nos
dá uma boa prévia dos marcantes trabalhos
que o animador viria a ter futuramente. Unida a
uma ágil e eficaz edição, esse
é o momento do filme em que realmente sentimos
que esse novo grupo de artistas era capaz de fazer
(e viria a fazer) grandes coisas.
Apesar
da luta ser o ponto alto do filme, também
há outras cenas que merecem ser lembradas:
o prólogo com a fuga da mãe raposa
pela floresta, mostrada de forma dramática
apenas pelo uso de efeitos sonoros, belas imagens
e tensa trilha sonora (uma das únicas seções
de destaques em uma trilha geralmente fraca e datada);
a cena em que a Viúva Titã é
obrigada a abandonar Dodó na floresta, que
não falha ao trazer uma ou duas lágrimas
a alguns espectadores; e as tensas cenas de perseguição
na floresta.
O
CÃO E A RAPOSA apresenta algumas das cenas
mais sérias em um filme Disney desde A BELA
ADORMECIDA, mas ainda é sabido que os artistas
(ou os executivos) não tiveram coragem de
ir aos extremos: Chefe originalmente deveria morrer
após sua queda dos trilhos, mas a cena foi
mudada para que ele apenas ficasse machucado. Não
deixa de ser surpreendente que o próximo
filme do estúdio seria o mais sombrio já
produzido até então (e talvez até
hoje): O CALDEIRÃO MÁGICO. O CÃO
E A RAPOSA não é um filme ruim, mas
em uma lista de quarenta e quatro longas animados,
ele está mais próximo do final do
que do topo. Ainda assim o filme foi um grande aprendizado
para a nova geração de artistas Disney,
e serviu para preparar o palco para as grandes coisas
que estavam para vir.