Com
OS INCRÍVEIS a Pixar se deparou com o mesmo
desafio enfrentado pela Disney em 1994, após
o gigantesco sucesso de O REI LEÃO: como fazer
jus às altas expectativas ao filme seguinte
a PROCURANDO NEMO, a maior bilheteria animada de todos
os tempos (ao menos até SHREK 2 aparecer) e
ainda assim não repetirem a si mesmos. Diz
o ditado que um raio não cai duas vezes no
mesmo lugar, mas a Pixar parece ser a exceção
à regra. Não apenas duas vezes, mas
seis: OS INCRÍVEIS dá continuidade à
impressionante trilha de sucessos do estúdio,
que inclui TOY STORY, VIDA DE INSETO, TOY STORY 2,
MONSTROS S.A. e PROCURANDO NEMO. E fugindo totalmente
a formula de buddy movies dos filmes anteriores (uma
dupla de personagens embarcando em uma grande jornada),
OS INCRÍVEIS se aventura em um território
nunca antes explorado pela Pixar: uma história
protagonizada por humanos e com vários elementos
que apenas serão compreendidos pela parte mais
velha da platéia.
No
começo do filme somos apresentados a um mundo
em que a existência super-heróis é
algo comum e que os mesmos são considerados
os grandes protetores da população.
Acompanhamos um pouco o cotidiano do Sr. Incrível,
um sujeito que divide o tempo entre ser um cidadão
comum e apanhar ladrões de banco, além
de salvar gatinhos presos na copa das árvores.
Quando um salvamento involuntário leva a
uma série de processos contra os super-heróis,
estes são obrigados a abdicar de sua profissão
e viverem apenas como pessoas normais escondidas
entre a população. Anos depois re-encontramos
o Sr. Incrível, agora conhecido simplesmente
como Beto Pêra, vivendo em uma simples casa
no subúrbio, com um emprego comum e com uma
família composta de sua esposa Helena Pêra
(conhecida como Mulher-Elástica no passado)
e seus filhos Violeta, Flecha e o bebê Zézé.
Extremamente
entediado com sua vida, Beto quer voltar aos velhos
tempos de super-herói, e tem essa chance
quando a misteriosa Miragem lhe contrata para resolver
uma missão em uma ilha deserta: destruir
o Omnidróide, um descontrolado protótipo
de robô que destrói tudo que cruza
seu caminho. Tudo era, na verdade, um plano cuidadosamente
arquitetado por Síndrome, um antigo fã
do Sr. Incrível que, cansado de ter sido
rejeitado diversas vezes pelo ídolo no passado,
resolve se tornar um super-herói da sua própria
maneira. Mantido sob cativeiro, a única esperança
de Betoé sua família que, percebendo
que há problemas, vai ao seu resgate.
Toda
a aventura de OS INCRÍVEIS é, na verdade,
apenas o pano de fundo para a história sobre
os conflitos de uma família que luta para
adequar-se aos padrões de vida convencionais
perante a sociedade, mas que ainda assim tem problemas
em resolver seus próprios conflitos internos.
E é nesse quesito que este filme se diferencia
não apenas dos outros animados da Pixar,
mas também de qualquer outro produzido nos
últimos anos: a comédia é deixada
de lado para dar lugar a explorações
psicológicas de seus personagens. Vemos Beto
e sua ânsia de se libertar de sua rotina de
homem comum, Helena tentando ser uma boa mãe
de família e salvar seu casamento ao mesmo
tempo, e Flecha e Violeta querendo encontrar um
lugar entre os outros de suas respectivas idades.
Com seus assuntos relativamente complexos e sua
alta exposição dos personagens, OS
INCRÍVEIS deixa claro desde o início
que este não é o seu típico
filme familiar. Os 115 minutos de duração
e o elevado nível de violência já
mostram que ele não foi produzido com as
crianças em mente. Isso não quer dizer
que o filme não possa ser apreciado por todas
as idades, mas sim que ganha uma visão totalmente
diferente quando visto pelos olhos de um adulto.
OS
INCRÍVEIS não é um projeto
ousado apenas pela sua história, mas também
pelo ponto de vista técnico, sendo o primeiro
filme da Pixar a ter um elenco totalmente humano.
Fãs de animação devem ter observado
a falta de sucesso em vários outros filmes
animados digitalmente em criar figuras humanas convincentes.
Além de geralmente se assemelharem a manequins
de plástico, eles não possuem o mesmo
appeal e credibilidade de um personagem humano animado
tradicionalmente. Felizmente OS INCRÍVEIS
nos faz momentaneamente esquecer desses experimentos
falhos do passado. A começar pela acertada
decisão de desenhar os personagens de forma
caricata e não extremamente realista, o espectador
nunca é levado a duvidar que a família
Incrível não seja real dentro do universo
do filme: a riqueza das expressões facial
é impressionante e os movimentos são
críveis e fluídos, não sendo
nem robóticos ou exagerados e ainda completos
com pleno uso do squash and strech. Ou seja, a ilusão
da vida está completa. A partir de agora,
este é o padrão de excelência
que devemos esperar para os subseqüentes filmes
de animação.
O
que começou apenas como um pequeno estúdio
de animação independente é
agora o maior nome do ramo, grande o bastante para
ditar as regras de sua parceria com a toda poderosa
Disney (parceria que tem indícios de continuar
nos anos a seguir com a saída de Michael
Eisner da casa do Mickey). Para os negativistas
que previam OS INCRÍVEIS como a primeira
escorregada da Pixar, não foi desta vez:
o filme entrou como grande favorito na disputa pelo
OSCAR da animação em 2004, conquistando
esta categoria, e ainda surpreendeu ao ganhar a
estatueta por melhor edição de som,
consolidando o impecável padrão de
qualidade da Pixar e mostrando que a união
de artistas talentosos com uma administração
acertada produz grandes resultados.